Nós já fizemos algumas viagens de carro por Portugal e, em uma delas, Costa Nova apareceu no nosso caminho quase como uma descoberta.
A cidade é conhecida pelas casinhas de madeira com listras coloridas, uma ao lado da outra, formando aquela paisagem que parece ter saído de um filme. É o tipo de lugar que você olha e pensa: isso é de verdade ou alguém montou esse cenário para uma fotografia?
E talvez o mais curioso seja que aquelas casas não nasceram para serem bonitas.
Antes de virarem um dos cartões-postais mais conhecidos do litoral português, elas tinham uma função bastante prática ligada à pesca.
Nós estivemos em Costa Nova no final do outono, fora da alta temporada. E, sinceramente, acho que foi justamente isso que fez a experiência ficar ainda mais especial.
O tempo estava mais chuvoso, fazia aquele friozinho típico da época e a cidade estava muito mais vazia. Em vez da Costa Nova movimentada que aparece nas fotografias de verão, encontramos ruas tranquilas, poucas pessoas e uma atmosfera quase cinematográfica.
Era como se tivéssemos caído dentro de um daqueles cenários de filme, com uma diferença importante: o roteiro era comandado por nós.
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As casas coloridas de Costa Nova têm nome
Antes de falar das cores, precisamos entender o que são aquelas construções.
Elas são conhecidas como palheiros da Costa Nova e fazem parte da arquitetura tradicional da região.
Hoje, algumas funcionam como casas, alojamentos, restaurantes e outros estabelecimentos. Mas a origem é bem diferente.
Os primeiros palheiros estavam ligados diretamente à atividade dos pescadores.
Costa Nova fica entre o Oceano Atlântico e a Ria de Aveiro, e a região tinha uma forte relação com a pesca. Os pescadores utilizavam essas construções principalmente para guardar redes, equipamentos e outros materiais necessários ao trabalho no mar.

E existe um detalhe interessante: as construções eram adaptadas ao ambiente das dunas.
Em períodos anteriores, alguns palheiros eram construídos sobre estacas, justamente para lidar melhor com a areia e com a movimentação das dunas provocada pelo vento.
Mas então por que começaram a pintar as casas com aquelas cores?

Aqui está a parte mais interessante da história.
Os palheiros não ficaram coloridos simplesmente porque alguém decidiu que seria bonito ter uma cidade cheia de casas vermelhas, azuis, verdes e amarelas.
A transformação aconteceu principalmente quando Costa Nova começou a ganhar importância como destino balnear, especialmente a partir da segunda metade do século XIX.
Com a popularização dos chamados “banhos de mar”, a região passou a receber visitantes durante o verão. Os pescadores começaram inclusive a alugar os seus palheiros durante a temporada balnear.
Foi assim que as fachadas ganharam cores mais fortes.
Segundo o Turismo de Portugal, as cores utilizadas nos palheiros lembravam a policromia dos barcos que circulavam pela Ria de Aveiro, especialmente os tradicionais moliceiros.
E isso muda completamente a maneira como enxergamos aquelas casas.
As listras coloridas fazem parte da ligação entre a arquitetura e a cultura marítima da região.
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As listras não são todas iguais
Quando você chega a Costa Nova pela primeira vez, pode imaginar que existe uma regra para pintar as casas.
Não existe exatamente uma única combinação.
Há palheiros com listras vermelhas, azuis, verdes, amarelas e outras tonalidades, geralmente alternadas com o branco. O resultado é uma sequência de fachadas que parece ter sido planejada por um único arquiteto.
Mas não foi assim.
Cada construção possui sua própria personalidade.
Existe uma mudança importante na história da região.
Segundo o Turismo Centro de Portugal, até o final do século XIX Costa Nova era praticamente desabitada. A instalação dos pescadores de Ílhavo na região esteve ligada às transformações na Barra do Porto de Aveiro, e os primeiros palheiros surgiram por necessidades relacionadas à pesca.
Depois, a região começou a mudar.
O litoral passou a ser procurado por pessoas interessadas nos banhos de mar, e os antigos espaços ligados à pesca ganharam uma nova função.
É curioso pensar nisso enquanto caminhamos pela marginal hoje.
As mesmas construções que um dia serviram para guardar redes e equipamentos de pescadores acabaram se tornando uma das paisagens mais fotografadas de Portugal.
Até pessoas famosas passaram por Costa Nova
Costa Nova também entrou na história cultural portuguesa.
Em meados do século XIX, a localidade começou a se tornar uma estância balnear frequentada por pessoas de outras partes do país.
Um dos personagens ligados a esse período foi José Estêvão, político português que construiu ali o seu próprio palheiro, conhecido pelas listras azuis e castanhas.
O espaço chegou a receber intelectuais e políticos, entre eles o escritor Eça de Queirós.
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A localização deixa tudo ainda mais interessante
Uma das coisas que mais gostamos em Costa Nova foi perceber como a paisagem muda dependendo de onde você olha.
De um lado está o oceano, com uma praia extensa e um mar muitas vezes bastante agitado.
Do outro está a Ria de Aveiro, muito mais tranquila.
Entre os dois, a cidade.
Essa posição cria uma paisagem muito particular, porque você pode estar olhando para as casas coloridas e, poucos metros depois, encontrar uma margem completamente diferente.
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O que fazer em Costa Nova além de fotografar as casinhas?
Aqui acho que existe uma pequena armadilha para quem visita a cidade pela primeira vez.
É fácil chegar, tirar algumas fotografias das casas coloridas e ir embora.
Nós achamos que vale a pena fazer o contrário: andar sem muita pressa.
A marginal é o lugar óbvio para começar, mas não precisa ficar apenas procurando a “casa mais bonita”.
Observe os detalhes.
As portas.
As janelas.
As diferenças entre as listras.
As casas que foram preservadas e aquelas que ganharam usos mais modernos.
E, principalmente, olhe para a relação entre os palheiros e a paisagem.
Costa Nova faz mais sentido quando você entende que aquelas casinhas não foram colocadas ali para formar um cenário turístico. Elas cresceram a partir da vida de uma comunidade ligada ao mar.
Nossa experiência fora da temporada foi diferente, e talvez melhor
Normalmente associamos Costa Nova ao verão.
É fácil imaginar a cidade ensolarada, cheia de turistas, bicicletas, pessoas indo para a praia e aquelas casas coloridas destacadas contra um céu azul.
Mas nós fomos no final do outono.
E foi uma experiência completamente diferente.
O céu estava mais fechado, o tempo estava chuvoso e havia muito menos gente pelas ruas.
Só que, para nós, isso não tirou a graça do lugar.
Na verdade, aconteceu o contrário.
A cidade estava tão tranquila que conseguimos caminhar praticamente no nosso ritmo, sem aquela sensação de estar disputando espaço com outros turistas.
Em alguns momentos, parecia mesmo que Costa Nova estava reservada para nós.
E existe uma beleza especial nisso.
As cores das casas ficam ainda mais fortes quando o céu está cinzento. O vermelho, o azul, o verde e o amarelo das fachadas parecem ganhar mais importância contra aquele fundo mais escuro.
Foi uma daquelas situações em que o mau tempo acabou fazendo parte da experiência, em vez de estragá-la.
E viajar fora da alta temporada teve outra vantagem
Costa Nova fez parte de uma viagem maior que estávamos fazendo de carro por Portugal e Espanha.
Começamos o roteiro por Portugal, seguimos depois para a Espanha, passamos por Gibraltar e, no final da viagem, voltamos para Lisboa, de onde sairia nosso voo de volta ao Brasil.
Nesse tipo de viagem, uma das coisas que mais pesam no orçamento é hospedagem.
E Portugal, apesar de continuar sendo um destino relativamente acessível em alguns aspectos, não é exatamente barato, principalmente em lugares muito procurados.
Nós percebemos isso especialmente em Lisboa.
Em alguns períodos, a sensação é de pagar bastante por uma hospedagem que nem sempre entrega aquilo que você imaginaria pelo preço.
Em Costa Nova tivemos uma experiência diferente.
Como estávamos fora da alta temporada, conseguimos encontrar pelo Booking uma hospedagem com um preço que consideramos razoável para a região.
É uma cidade que, com certeza, vale a visita.
