Antes de conhecer Santorini, eu já tinha visto centenas de fotos da ilha. É impossível não se encantar, vai chegando o verão na Europa e o nosso feed já começa a lotar de casinhas brancas para todos os lados. São atores famosos e diversas celebridades que não perdem a oportunidade de curtir as férias em um cenário típico das ilhas cíclades na Grécia.
É praticamente impossível pensar em Santorini sem imaginar aquelas casas brancas descendo pelas encostas, as portas coloridas, as igrejinhas com cúpulas azuis e o mar do Egeu ao fundo.
Mas existe uma coisa curiosa nessa paisagem: por que, afinal, as casas de Santorini são brancas? Isso tem uma explicação e ela pode surpreender você.
A resposta que muita gente dá é simples: “por causa do calor”. Só que isso é só uma pequena parte da história. Quando começamos a pesquisar sobre a arquitetura da ilha, descobrimos que a famosa cor branca tem uma história muito mais interessante, envolvendo materiais de construção, clima, higiene, epidemias e até decisões políticas.
E depois de estar em Santorini, a pergunta faz ainda mais sentido. Porque, olhando aquelas casas de perto, fica difícil acreditar que tudo aquilo surgiu apenas para ficar bonito em fotografias.
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Você sabia que Santorini nem sempre foi toda branca?

Essa talvez seja a primeira surpresa.
A imagem que temos hoje de Santorini, praticamente uma ilha coberta por construções brancas, não representa exatamente como a arquitetura local sempre foi.
As construções tradicionais de Santorini nasceram principalmente da necessidade de aproveitar os materiais disponíveis na própria ilha. O terreno vulcânico fornecia pedra, pedra-pomes, cinzas e outros materiais que eram incorporados às construções.
Em vez de grandes casas isoladas, muitas habitações eram construídas de maneira compacta, algumas parcialmente escavadas na encosta. Os chamados yposkafa, por exemplo, aproveitavam a própria formação vulcânica para criar ambientes protegidos. A arquitetura da ilha, portanto, foi muito mais uma resposta às condições locais do que uma tentativa de criar aquele cenário perfeito que hoje aparece nos cartões-postais.
E isso explica uma coisa que percebemos quando caminhamos por Santorini: as casas parecem fazer parte da própria montanha.
Elas não estão simplesmente sobre a paisagem. Em muitos lugares, estão encaixadas nela.
Então por que começaram a pintar as casas de branco?
Aqui entra o famoso cal, ou limewash.
A pintura branca tradicional era feita à base de cal, um material relativamente simples e acessível, que podia ser aplicado sobre as paredes e renovado periodicamente.
E havia uma vantagem enorme em um lugar como Santorini: a cor branca reflete uma quantidade maior da radiação solar, ajudando a reduzir o aquecimento das superfícies expostas ao sol.
Isso era especialmente útil em uma ilha onde o verão pode ser extremamente ensolarado.
Mas existe um detalhe importante: dizer que “as casas são brancas para combater o calor” é verdadeiro, mas incompleto.
A escolha do branco também estava relacionada à própria utilização da cal como revestimento e às suas propriedades sanitárias. A cal era usada para higienização e tinha propriedades antimicrobianas, o que ganhou importância em períodos de preocupação com doenças infecciosas.
Ou seja, aquela paisagem que hoje parece ter sido criada para o Instagram nasceu, em boa parte, de necessidades bastante práticas.
A história da cal ficou ainda mais importante no século XX

É aqui que a história fica particularmente interessante.
Durante as décadas de 1930, medidas de saneamento passaram a incentivar ou exigir a utilização de cal para a desinfecção de edifícios na Grécia. A crise sanitária associada a doenças como a cólera é frequentemente apontada como um dos fatores que ajudaram a consolidar o hábito de caiar as construções das ilhas.
Em 1938, durante o regime de Ioannis Metaxas, a utilização de cal para higienização dos edifícios ganhou força como medida sanitária.
Isso é importante porque derruba uma ideia muito comum: Santorini não ficou branca simplesmente porque os antigos gregos decidiram que branco era uma cor bonita.
A padronização do branco é muito mais recente do que muita gente imagina.
A arquitetura tradicional é antiga. A transformação do branco em uma característica tão dominante da paisagem é outra história.
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E por que algumas casas são azuis?
Aí entra outro elemento que confunde ainda mais quem olha Santorini pela primeira vez.
Se o branco tinha razões práticas e sanitárias, de onde veio o azul?
A resposta também não é tão simples quanto “porque são as cores da bandeira da Grécia”.
O azul realmente acabou associado à identidade nacional grega, mas essa explicação não conta toda a história. Em Santorini e em outras ilhas das Cíclades, diferentes tons apareceram nas portas, janelas, detalhes arquitetônicos e igrejas.
As famosas cúpulas azuis, por exemplo, estão especialmente associadas às igrejas ortodoxas e se tornaram uma das imagens mais reconhecíveis da ilha.
Com o tempo, a combinação entre branco e azul ganhou uma força simbólica enorme. O azul passou a lembrar o mar e o céu do Egeu e também se encaixou perfeitamente na identidade visual nacional da Grécia.
Durante períodos políticos do século XX, especialmente durante a ditadura dos coronéis, a associação entre as cores azul e branca e a identidade nacional foi reforçada. Isso ajudou a consolidar uma estética que hoje parece muito mais antiga e uniforme do que realmente é.
Mas existe uma coisa que as fotos de Santorini não mostram

Quando vemos uma fotografia de Oia, parece que a ilha inteira foi construída seguindo o mesmo projeto.
Não foi.
E esse talvez seja um dos aspectos mais interessantes da arquitetura de Santorini.
Existem casas brancas, mas também existem construções com outras cores e detalhes em tons terrosos. Fontes históricas sobre a arquitetura da ilha registram o uso de vermelhos, ocres, marrons e outros tons associados aos materiais vulcânicos e às técnicas tradicionais de construção.
Isso significa que aquela Santorini completamente branca que temos na cabeça é, em certa medida, uma versão cuidadosamente consolidada da paisagem tradicional.
Não é falsa. Mas também não é uma fotografia congelada de como a ilha sempre foi.
Quando estivemos em Santorini, isso passou a fazer mais sentido
Estar em Santorini muda um pouco a maneira como enxergamos aquelas fotografias.
De longe, tudo parece muito organizado: o branco das paredes, o azul das cúpulas, as piscinas, o mar e o vulcão formando aquele cenário quase surreal.
Mas, andando pelas ruas, começamos a perceber que existe muito mais acontecendo naquela arquitetura.
As paredes são grossas. As construções são compactas. Muitas casas parecem surgir diretamente da encosta. As ruas e passagens estreitas criam sombra. E a ausência de grandes áreas abertas entre as construções também faz sentido em um lugar castigado pelo sol e pelos ventos.
Aquela arquitetura não nasceu para ser bonita em uma fotografia.
Ela precisava funcionar.
E talvez seja justamente por isso que tenha ficado tão bonita.
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O branco também ajuda a explicar a arquitetura de Santorini

Outra coisa que vale observar é que o branco não está separado da geografia da ilha.
Santorini é uma formação vulcânica bastante particular. A enorme caldeira criada por antigas erupções domina a paisagem, e localidades como Fira e Oia foram construídas nas encostas voltadas para esse cenário.
As casas tradicionais precisavam lidar com um terreno difícil, pouca madeira disponível e condições climáticas específicas. Por isso, surgiram soluções arquitetônicas muito diferentes das que encontramos em outras partes da Europa.
A pedra-pomes e outros materiais vulcânicos foram importantes na construção, enquanto as formas curvas e abobadadas ajudavam a vencer a escassez de madeira estrutural.
É por isso que, quando olhamos uma casa tradicional de Santorini, não deveríamos enxergar apenas uma “casinha branca grega”.
Estamos olhando para uma construção moldada por vulcão, vento, sol, escassez de materiais e séculos de adaptação humana.
Santorini ficou famosa pela beleza, mas a história é muito mais interessante
Talvez a maior ironia de Santorini seja justamente essa.
Hoje, milhões de pessoas querem fotografar aquelas paredes brancas. Hotéis e restaurantes investem para manter a aparência característica da ilha. As cúpulas azuis viraram praticamente um símbolo turístico da Grécia.
Mas a origem daquela estética está longe de ser apenas estética.
O branco ajudava a lidar com o sol, a cal era útil na conservação e higiene das construções e as características da arquitetura nasceram das condições particulares da ilha.
Depois, vieram as políticas sanitárias, a identidade nacional, o turismo e a transformação de Santorini em um dos destinos mais fotografados do mundo.
O que hoje parece ter sido planejado para ficar bonito nasceu, em grande parte, da necessidade de sobreviver e se adaptar.
E acho que essa é uma maneira muito mais interessante de olhar para Santorini.
