Nós estivemos em Veneza. O que aconteceria se seus canais secassem?

Cássia Alves

agosto 15, 2026

O que aconteceria se os canais de Veneza secassem?
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Veneza é uma daquelas cidades em que a água parece fazer parte da arquitetura. Ela está por todos os lados: nos canais, nas pequenas pontes, nas fachadas dos palácios e até na maneira como as pessoas se deslocam.

Quando estivemos em Veneza pela primeira vez, em novembro de 2018, tivemos justamente uma experiência que mostrou o outro lado dessa relação. A água, naquele período, comumente apenas embaixo das nossas gôndolas e dos barcos, havia avançado sobre a cidade e chegado às portas e aos degraus das escadas dos hotéis, de lojas e restaurantes.

Foi impossível não pensar em como Veneza é vulnerável quando o nível da água muda demais.

Mas existe um cenário quase oposto que também é assustador: o que aconteceria se os canais de Veneza secassem?

A resposta é mais complexa do que simplesmente imaginar uma cidade sem água.

Veneza poderia realmente ficar sem água?

Por incrível que pareça, sim, pelo menos temporariamente.

Inclusive isso já aconteceu em menor escala. Em períodos de maré excepcionalmente baixa, alguns canais menores de Veneza podem ficar praticamente secos, deixando o fundo lodoso exposto. Em um episódio recente de maré muito baixa, por exemplo, canais menores chegaram a ficar difíceis ou impossíveis de navegar, afetando inclusive o transporte e o atendimento por barcos.

Mas existe uma diferença enorme entre alguns canais ficarem temporariamente secos e toda a rede de canais de Veneza perder água.

Os canais fazem parte de um sistema muito maior, a Laguna de Veneza, conectada ao Mar Adriático por três bocas de porto.

As marés fazem a água entrar e sair da laguna, movimentando sedimentos e ajudando a manter o funcionamento natural desse ambiente. A própria UNESCO descreve a lagoa como um sistema de ambientes interligados, cuja dinâmica depende das trocas entre a bacia hidrográfica, a laguna e o Adriático.

Por isso, se a água desaparecesse dos canais por um período prolongado, o problema seria muito maior do que simplesmente deixar Veneza com uma aparência diferente.

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O fundo dos canais começaria a aparecer

A primeira mudança seria visual.

Onde hoje vemos água refletindo os prédios históricos, apareceriam lama, sedimentos, pedras, estruturas submersas e provavelmente uma quantidade considerável de resíduos acumulados ao longo dos anos.

E Veneza não seria mais a mesma cidade.

Gôndolas e barcos teriam dificuldade para circular. Os vaporetti, que fazem parte do sistema de transporte público veneziano, teriam problemas principalmente nos canais menores. Algumas áreas poderiam simplesmente deixar de ser navegáveis.

Isso já dá uma ideia do problema quando acontecem marés muito baixas.

Mas existe algo ainda mais importante: os canais precisam ser mantidos.

Sedimentos se acumulam e podem precisar ser removidos para manter determinadas vias navegáveis. Portanto, uma Veneza com canais permanentemente rasos exigiria intervenções cada vez maiores.

E os prédios? Eles poderiam ser afetados?

Aqui existe um detalhe que muita gente não imagina.

Veneza foi erguida em uma área de terrenos pantanosos e sedimentos, utilizando milhões de estacas de madeira cravadas no solo para sustentar as construções.

Por isso, é tentador pensar que, se a água desaparecesse, os prédios simplesmente começariam a desmoronar.

Não é tão simples.

As fundações de Veneza não dependem da água dos canais para permanecerem de pé. O problema seria indireto e envolveria principalmente as condições do solo, das fundações, da circulação de água e do equilíbrio da própria lagoa.

Além disso, Veneza já enfrenta um problema muito mais conhecido: a combinação entre subsidência do terreno e elevação do nível do mar.

Nós vimos o outro extremo em 2018

Veneza em 2018.

Quando visitamos Veneza pela primeira vez, em novembro de 2018, esse equilíbrio parecia especialmente frágil.

Naquele período, a cidade enfrentou um dos episódios de acqua alta mais impressionantes dos últimos anos.

No dia 29 de outubro de 2018, a maré chegou a 156 centímetros em Punta della Salute. Cerca de 75% da área urbana chegou a ficar alagada segundo os registros divulgados na época.

E há uma razão interessante para aquele episódio ter sido tão intenso.

Não foi simplesmente “a maré subiu”.

Uma combinação de fatores meteorológicos contribuiu para empurrar ainda mais água para dentro da lagoa. O vento siroco, vindo do sudeste, soprou fortemente pelo Adriático, enquanto uma perturbação atmosférica provocava queda da pressão e condições favoráveis ao aumento do nível da água. O próprio município de Veneza registrou rajadas que chegaram a aproximadamente 95 km/h durante o episódio.

O resultado foi aquela cena que ficou marcada para quem estava na cidade: água ocupando áreas que normalmente eram ruas e praças.

E nós vimos justamente essa Veneza.

A sensação é estranha porque, ao mesmo tempo em que a situação impressiona, você percebe que aquilo não é simplesmente uma atração turística. Para quem mora ali, água alta significa comércio prejudicado, transporte interrompido, limpeza e, em episódios extremos, danos dentro das construções.

Isso é comum em Veneza?

A acqua alta faz parte da história de Veneza. Portanto, não é correto dizer que qualquer inundação significa que a cidade está entrando em colapso.

Marés acima de 100 centímetros acontecem e a cidade possui sistemas para lidar com elas. O problema está nos episódios realmente extremos e na tendência de aumento do risco.

O ano de 2018, por exemplo, teve 121 episódios de maré sustentada acima de 80 centímetros, nove deles acima de 120 centímetros e dois acima de 140 centímetros. O município considerou aquele um ano particularmente difícil.

E 2019 mostrou que a situação poderia ser ainda pior.

Em 12 de novembro daquele ano, a maré chegou a 187 centímetros, um dos níveis mais altos já registrados em Veneza. O recorde histórico continua sendo de 194 centímetros, registrado em 4 de novembro de 1966.

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O que Veneza fez para tentar controlar as enchentes?

Mose em Veneza.

A principal resposta foi o MOSE, um gigantesco sistema de barreiras móveis instalado nas três entradas da lagoa.

O projeto possui 78 comportas, que podem ser elevadas para impedir temporariamente que a maré alta entre na lagoa.

A primeira operação conjunta das 78 barreiras aconteceu em 3 de outubro de 2020. Naquele teste, enquanto a maré no mar chegou a 132 centímetros, o nível dentro da lagoa permaneceu em torno de 70 centímetros, mostrando na prática a capacidade do sistema de bloquear a entrada da água.

Foi uma mudança importante para Veneza.

Hoje, portanto, existe uma espécie de enorme “porta” entre o Adriático e a lagoa que pode ser fechada quando há previsão de acqua alta significativa.

Mas isso não significa que o problema esteja resolvido para sempre.

E se os canais secassem por causa do MOSE?

Essa é uma parte interessante da história.

O MOSE precisa impedir temporariamente a entrada de água do mar, mas a lagoa também depende das trocas com o Adriático. Não seria possível simplesmente manter as comportas fechadas indefinidamente sem consequências.

A lagoa é um ecossistema complexo, e a circulação das águas é importante para sua dinâmica natural.

É por isso que o objetivo não é transformar Veneza em uma espécie de cidade isolada do mar. A ideia é fechar as entradas durante os episódios perigosos e reabri-las depois.

O próprio município registra que, desde o início da operação do MOSE, os níveis do mar e da lagoa são monitorados continuamente durante os episódios em que as barreiras são acionadas.

Veneza precisa, portanto, de água.

Mas precisa da quantidade certa de água, no lugar certo e no momento certo.

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O verdadeiro perigo para Veneza está no desequilíbrio

Água demais pode inundar casas, lojas, igrejas e praças.

Água de menos pode dificultar a navegação, expor o fundo dos canais e alterar as condições ambientais da lagoa.

E, enquanto Veneza tenta lidar com os dois extremos, existe ainda o problema de longo prazo da elevação do nível do mar e das mudanças nas condições ambientais.

Por isso, se um dia os canais de Veneza realmente secassem de forma prolongada, provavelmente o primeiro impacto seria turístico e logístico. Depois viriam problemas ambientais, de navegação e de manutenção.