Por que as casas da Grécia são brancas (não é nada romântico)

Cássia Alves

setembro 29, 2026

Por que as casas da Grécia são brancas (e a resposta não tem nada de romântico)
Início » Mundo » Por que as casas da Grécia são brancas (não é nada romântico)

Andar pelas ruelas de Apollonia, a capital de Sifnos, dá a sensação de estar dentro de um cenário perfeitamente planejado: paredes brancas, degraus brancos, muretas brancas, tudo reluzindo sob o sol das Cíclades. É fácil imaginar que essa estética nasceu de alguma escolha puramente artística, quase poética. A história real é bem mais prática, e bem mais recente do que a maioria imagina.

As casa brancas foram uma questão de epidemia, não um projeto estético

O branco que hoje é sinônimo visual da Grécia insular não é uma tradição milenar. Ele se consolidou de forma oficial e obrigatória em 1938, quando uma epidemia de cólera se espalhou pelo país.

O ditador grego da época, Ioannis Metaxas, determinou por decreto que todas as casas das regiões mais isoladas, incluindo as ilhas Cíclades e o Dodecaneso, fossem caiadas com cal. A escolha não foi por acaso: a cal é, há milênios, reconhecida como um desinfetante natural potente, usado justamente para conter a propagação de doenças em períodos de crise sanitária.

Antes mesmo desse decreto, porém, já existia um motivo prático mais antigo para o uso da cal nas casas de pedra: o calor. As construções tradicionais das Cíclades eram feitas com a pedra local, escura, que absorvia calor e deixava o interior das casas praticamente insuportável durante o verão. Cobrir essas paredes com uma mistura de cal, sal e água, muito mais barata do que qualquer tinta, ajudava a refletir a luz do sol e manter os ambientes mais frescos. Ou seja, antes de virar lei, branquear as casas já era, na prática, uma solução de bom senso.

Veja também: Pessoas em Heraklion marcam encontro nos mesmos leões de quase 400 anos atrás

Por que o hábito continuou depois da ditadura?

O que chama atenção é que, mesmo depois do fim da obrigatoriedade, e mesmo depois de sucessivas mudanças políticas ao longo do século XX, os moradores das ilhas continuaram caiando suas casas. Parte disso tem a ver com o efeito prático já mencionado (o branco realmente refletia calor e ajudava a manter as casas mais frescas), mas parte também tem a ver com um símbolo emocional, durante os períodos mais duros da história grega recente, incluindo a Segunda Guerra Mundial, esse branco brilhante passou a representar uma espécie de respiro visual, um contraponto simbólico a tempos difíceis.

Com o tempo, o hábito virou identidade e, décadas depois, virou também atração turística e motor econômico para ilhas como Sifnos, que hoje dependem, em boa parte, dessa estética reconhecível internacionalmente para atrair visitantes.

É muito interessante pensar em como algo que hoje é tão turístico e belo, na verdade, teve a sua origem em uma razão completamente diferente. Não existe nada de místico nisso, só uma combinação de bom senso climático, necessidade sanitária e, depois, apego cultural.

Da próxima vez que uma foto de Apollonia ou de qualquer outra vila cicládica aparecer com aquelas paredes brancas reluzindo sob o sol, vale lembrar que aquele branco carrega, por trás da beleza óbvia, uma história de epidemia, decreto e adaptação ao calor, muito mais prática do que qualquer cartão-postal sugere.