Tem um detalhe que passa despercebido para quem só para para tirar foto na Praça dos Leões, no coração de Heraklion: aquela fonte de mármore não foi construída para ser bonita. Ela foi construída porque a cidade estava com sede, literalmente.
A praça é hoje o ponto de encontro mais movimentado da capital de Creta, cercada de cafés, sorveterias e lojas de souvenir. O nome oficial dela é Praça Eleftheriou Venizelou, em homenagem a um primeiro-ministro grego. Mas praticamente ninguém em Heraklion a chama assim. Para os moradores, é só “a praça dos leões”, ou simplesmente “os leões”, por causa dos quatro felinos de mármore que sustentam a bacia central da fonte que dá nome ao lugar.
Um problema de água resolvido com 14 meses de obra
No início do século XVII, Candia, nome veneziano de Heraklion, enfrentava um problema sério de abastecimento de água potável. A solução veio do então governador da cidade, Francesco Morosini, que projetou um sistema de aqueduto capaz de trazer água das nascentes da região de Archanes, a alguns quilômetros de distância, até o centro urbano.
A fonte que hoje leva o nome de Morosini é justamente o ponto final desse sistema, construída com a ajuda dos engenheiros Zorzi Corner, Raffaello Monnani e Francesco Basilicata. A obra levou pouco mais de 14 meses e foi inaugurada em 25 de abril de 1628, data que coincidia com a celebração de São Marcos, padroeiro de Veneza. Na prática, aquilo era uma torneira pública gigante: a fonte chegava a fornecer mais de mil barris de água por dia para a população da cidade.
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Detalhes que só fazem sentido de perto
A estrutura é formada por oito pequenas bacias ao redor da base, um projeto pensado para que várias pessoas conseguissem encher seus potes de água ao mesmo tempo, cerca de cinco pessoas por bacia, segundo registros da época. Cada uma delas é decorada com relevos inspirados na mitologia grega: tritões, ninfas, golfinhos, além dos brasões do doge de Veneza e das autoridades responsáveis pela obra.
No centro, sustentada por quatro leões de mármore, símbolo da força de Veneza, ficava originalmente uma estátua de Poseidon empunhando um tridente. A escultura acabou destruída durante o período de ocupação otomana, possivelmente em consequência de algum terremoto.
Foi também sob domínio otomano que a fonte passou por adaptações práticas: colunas de mármore foram instaladas ao redor dela, com pequenos orifícios que permitiam às pessoas se lavarem antes de entrar para orar na mesquita que funcionava próxima dali. Essas modificações foram removidas depois, e a fonte recuperou seu desenho original.
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De torneira pública a point de Heraklion
O que há de mais interessante nessa história é observar a linha do tempo: uma estrutura criada para resolver um problema de infraestrutura básica, água potável, se transformou, quatro séculos depois, no principal ponto de encontro social de uma cidade inteira. É ali que moradores marcam encontro depois do trabalho, que turistas param para descansar entre um museu e outro, que se organizam eventos e celebrações.
Pertinho da fonte fica também a Basílica de São Marcos, hoje transformada em galeria municipal de arte, e a Loggia veneziana, um prédio elegante que hoje abriga parte da prefeitura de Heraklion.

Ou seja: em poucos metros quadrados, dá para ver como uma mesma praça carrega camadas de função, defesa de recursos básicos, poder religioso, administração pública e, por fim, vida social cotidiana.
Da próxima vez que alguém sentar à beira da fonte dos leões tomando um café gelado, vale lembrar que aquele mármore gasto pelo tempo já resolveu, sozinho, o problema de sede de uma cidade inteira, e que continua, quase 400 anos depois, cumprindo a mesma função de sempre: reunir gente.
