Existe uma palavra que qualquer grego reconhece na hora: “tselementés”. Ela é usada, no dia a dia, como sinônimo de “livro de receitas”, da mesma forma que, no Brasil, alguém poderia dizer “aquilo é uma bíblia da culinária”. O que pouca gente fora da Grécia sabe é que essa palavra vem do sobrenome de uma pessoa real: Nikolaos Tselementes, cozinheiro nascido em 1878 numa vila chamada Exambela, no interior de uma ilha pequena e discreta chamada Sifnos.
O livro que virou item obrigatório em toda casa grega

Tselementes estudou a arte da culinária em Viena antes de trabalhar em algumas das cozinhas mais renomadas da época, entre hotéis de luxo na Europa e nos Estados Unidos.
Em 1910, publicou um livro de quinhentas páginas chamado “Odigos Mageirikis”, algo como “Guia de Culinária”, reunindo técnicas, receitas e orientações práticas de cozinha. O livro se tornou tão popular, e tão presente em praticamente todos os lares gregos, que o sobrenome do autor passou a funcionar como sinônimo genérico da própria palavra “livro de receitas”, um fenômeno linguístico raro, comparável a marcas que viram nome genérico de produto.
Tselementes é hoje considerado o fundador da gastronomia grega moderna, sendo o responsável por incorporar técnicas ocidentais, principalmente francesas, como o uso de molho branco e manteiga, a pratos que hoje são tidos como profundamente tradicionais na Grécia, caso da moussaka e do pastitsio.
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Uma ilha de três mil habitantes que carrega esse peso histórico
O curioso é que Sifnos, a ilha que viu nascer essa figura central da culinária grega, segue sendo um destino relativamente discreto se comparado a vizinhas mais famosas como Mykonos ou Santorini. Ainda assim, entre chefs e viajantes que se interessam por gastronomia, Sifnos carrega um peso simbólico enorme, a ilha é descrita, com frequência, como a capital gastronômica das Cíclades.
Uma frase resume bem esse orgulho local: chefs que hoje trabalham na ilha costumam dizer que a ligação com Tselementes foi determinante para escolherem trabalhar ali, afinal, “o chef grego mais famoso da história veio daqui”.
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Um legado que vai além do próprio chef
Mais do que o nome de uma pessoa, o que sustenta essa identidade gastronômica é o conjunto de tradições culinárias que se mantêm presentes na ilha até hoje: pratos preparados em panelas de barro específicas, produzidas há séculos pelos próprios oleiros locais; ingredientes simples cultivados na própria terra, e rituais culinários, como o preparo, ainda comum aos finais de semana, de pratos que levam dois dias inteiros para ficarem prontos.
Desde 2023, a própria tradição oleira sifniota, intimamente ligada a essa gastronomia, foi inscrita no Inventário Nacional do Patrimônio Cultural Imaterial da Grécia, reconhecendo formalmente o valor histórico dessa combinação entre barro e comida que caracteriza a ilha.
Existe algo bonito na ideia de que a base da culinária de um país inteiro tenha nascido não numa grande cidade, mas numa ilha pequena, isolada, dependente havia séculos de ingredientes simples e de técnicas que vieram dos antepassados. Sifnos prova que identidade gastronômica não se constrói necessariamente com sofisticação ou escala, às vezes, basta um livro, uma tradição bem guardada, e uma comunidade disposta a manter viva, prato após prato, uma forma específica de cozinhar.
