Por que os torcedores têm superstições durante a Copa do Mundo?

Cássia Alves

julho 3, 2026

Por que os torcedores têm superstições durante a Copa do Mundo?
Início » Curiosidades » Por que os torcedores têm superstições durante a Copa do Mundo?

Durante uma Copa do Mundo, o futebol parece ganhar uma camada extra de mistério. Não basta acompanhar a escalação, analisar o adversário ou torcer diante da televisão. Para muita gente, também é preciso vestir a mesma camisa usada em uma vitória anterior, sentar no mesmo lugar do sofá, evitar comentar sobre um possível título antes da hora ou repetir algum ritual minutos antes do apito inicial.

Esses hábitos podem parecer apenas brincadeiras, mas revelam algo bastante humano: a necessidade de encontrar algum controle quando o resultado está fora das nossas mãos. Afinal, o torcedor sente cada lance como se estivesse dentro do campo, embora saiba que não pode interferir diretamente no passe decisivo, na defesa do goleiro ou na cobrança de pênalti.

É nesse espaço entre emoção, incerteza e esperança que as superstições ganham força. Elas não mudam o placar, mas podem ajudar o torcedor a lidar com a ansiedade e transformar uma partida importante em uma experiência coletiva ainda mais intensa.

Por que os torcedores criam superstições?

A principal explicação está na chamada ilusão de controle. Trata-se da tendência humana de acreditar que determinadas atitudes podem influenciar acontecimentos que, na prática, dependem de fatores externos ou do acaso.

No futebol, essa sensação aparece com facilidade. Uma seleção pode estar em campo a milhares de quilômetros de distância, mas o torcedor cria uma ligação simbólica entre seu comportamento e o desempenho do time. Assim, usar uma camisa específica, assistir ao jogo em determinado local ou repetir uma frase antes da partida pode parecer uma forma de “ajudar”.

Esse mecanismo se torna ainda mais comum em situações de grande tensão. Copa do Mundo, mata-mata, finais e decisões por pênaltis envolvem alto nível de expectativa. Como ninguém consegue prever com certeza o que vai acontecer, pequenos rituais oferecem uma sensação temporária de organização e segurança.

Pesquisas sobre rituais e superstições indicam que esses hábitos podem reduzir a ansiedade e aumentar a confiança subjetiva. Isso não significa que tenham poder sobrenatural ou alterem o desempenho dos jogadores. O efeito ocorre, principalmente, na mente de quem realiza o ritual: a pessoa pode se sentir mais preparada, calma ou conectada ao momento.

Veja também: 5 histórias reais do futebol que parecem roteiro de filme

A memória seletiva também fortalece as “mandingas”

Outro fator importante é a forma como o cérebro registra coincidências. Imagine que alguém tenha usado uma camisa amarela durante uma vitória importante da seleção. Na partida seguinte, decide repeti-la e o time vence novamente. A camisa passa a ser vista como “pé-quente”.

Por outro lado, as derrotas costumam ser explicadas de outras maneiras: erro do técnico, má atuação, azar, arbitragem ou força do adversário. Com isso, a pessoa tende a lembrar mais dos momentos em que o ritual coincidiu com um bom resultado do que das vezes em que ele não funcionou.

Esse processo é conhecido como viés de confirmação. Ele acontece quando damos mais atenção às informações que reforçam uma crença já existente e ignoramos ou minimizamos aquelas que a contradizem.

No futebol, isso é comum porque os resultados carregam muita emoção. Uma vitória pode virar uma suposta prova de que a superstição funcionou. Já uma derrota pode levar o torcedor a mudar algo no ritual: trocar a camisa, sentar em outro lugar ou evitar determinada companhia durante o jogo.

As principais superstições de torcedores durante a Copa

As crenças variam de país para país, de família para família e até de jogo para jogo. Ainda assim, algumas práticas aparecem com frequência em Copas do Mundo e grandes competições.

Usar a “camisa da sorte”

Essa é provavelmente uma das superstições mais comuns. O torcedor escolhe uma camisa associada a uma vitória importante e passa a usá-la sempre que a seleção entra em campo.

Em alguns casos, a roupa não pode ser lavada entre os jogos. Em outros, precisa ser usada com o mesmo boné, pulseira, meia ou até roupa íntima. O objeto deixa de ser apenas uma peça de vestuário e passa a representar esperança.

Assistir ao jogo sempre no mesmo lugar

Muitas pessoas acreditam que mudar de posição pode “quebrar” a sorte. Por isso, repetem o mesmo assento no sofá, a mesma cadeira no bar ou o mesmo canto da sala.

Há torcedores que evitam até levantar durante uma sequência favorável do time. Caso um gol saia enquanto estavam sentados de determinada forma, podem tentar manter a posição durante o restante da partida.

Não falar em vitória antes do fim

“Não zica” é uma das frases mais conhecidas entre torcedores brasileiros. A ideia é que comemorar cedo demais, anunciar uma classificação ou tratar o título como garantido pode atrair azar.

Esse comportamento mostra como o torcedor tenta se proteger emocionalmente. Evitar previsões muito otimistas pode parecer uma maneira de não “provocar” o destino e também de reduzir a frustração caso o resultado seja ruim.

Fazer promessas e simpatias

Promessas religiosas, pedidos pessoais, orações e simpatias também aparecem em momentos decisivos. É importante diferenciar fé de superstição: a fé faz parte das crenças e práticas espirituais de muitas pessoas, enquanto a superstição geralmente estabelece uma relação direta entre um gesto específico e um resultado esportivo.

Ainda assim, ambas podem ter um papel emocional semelhante para quem torce: criar esperança, oferecer conforto e ajudar a enfrentar a tensão de uma partida.

Evitar certas pessoas, comentários ou objetos

Alguns torcedores acreditam que determinadas pessoas “dão azar”, especialmente se costumam assistir aos jogos quando a seleção perde. Outros evitam comentar sobre um jogador, uma possível escalação ou uma vantagem no placar.

Também existem os chamados objetos de sorte: bandeiras, santinhos, moedas, chaveiros, pulseiras e fotos que acompanham o torcedor durante os jogos.

Repetir comidas e bebidas de partidas anteriores

Se o time venceu enquanto a pessoa comia pizza, churrasco, pipoca ou tomava uma bebida específica, aquele cardápio pode virar parte do ritual. A lógica é a mesma da camisa da sorte: uma coincidência positiva é transformada em regra para os próximos jogos.

Veja também: O que os turistas realmente pensam de um país durante a Copa do Mundo?

Superstição também é uma forma de pertencimento

As superstições não são apenas individuais. Muitas delas se espalham entre amigos, famílias, grupos de trabalho e torcidas organizadas. Quando várias pessoas repetem os mesmos gestos, usam as mesmas cores ou seguem uma tradição antes da partida, criam uma sensação de união.

Na Copa do Mundo, isso se torna ainda mais forte porque milhões de pessoas acompanham o mesmo evento. O torcedor pode estar sozinho em casa, mas sabe que há muita gente usando a camisa da seleção, evitando “zicar” o time e vivendo a mesma ansiedade.

Esses hábitos ajudam a construir uma identidade coletiva. Eles fazem parte das histórias que serão lembradas depois: “Foi naquele jogo em que ninguém podia mudar de lugar”, “Aquela camisa deu sorte” ou “A gente só ganhou porque repetiu o ritual da estreia”.

Quando a superstição deixa de ser divertida?

Na maioria das vezes, os rituais de torcida são inofensivos e fazem parte da diversão. Eles podem tornar o jogo mais simbólico, aproximar pessoas e criar memórias afetivas.

Porém, vale atenção quando a superstição gera sofrimento, culpa excessiva ou impede alguém de aproveitar o momento. Caso uma pessoa acredite seriamente que uma derrota aconteceu porque mudou de cadeira, esqueceu uma camisa ou assistiu ao jogo com alguém específico, o ritual pode deixar de ser leve.

O resultado de uma partida depende de muitos fatores reais: preparação física, estratégia, desempenho técnico, decisões tomadas em campo, condições do jogo e, claro, uma dose inevitável de imprevisibilidade. Nenhuma camisa, comida ou posição no sofá determina o placar.

Mesmo assim, as superstições continuam presentes porque o futebol não é feito apenas de estatísticas. Ele também envolve emoção, memória, esperança e a vontade de participar, mesmo à distância, de algo maior do que nós mesmos.

No fim, talvez essa seja a verdadeira função das mandingas da Copa: não controlar a bola, mas dar ao torcedor a sensação de que também está jogando junto.