A primeira coisa que eu diria para alguém que nunca viu a Aurora Boreal é simples: não confie completamente nas fotos da internet.
Não porque elas sejam falsas. A Aurora estava realmente ali quando aquelas imagens foram feitas. O problema é outro. Uma câmera consegue registrar uma quantidade de luz que os nossos olhos, principalmente quando o fenômeno está fraco, não percebem da mesma maneira.
Nós descobrimos isso de um jeito bastante curioso.
Já fomos duas vezes ao extremo norte da Europa atrás da Aurora Boreal. Na primeira viagem, fomos para Rovaniemi, na Finlândia, em dezembro. Ficamos alguns dias perto da Vila do Papai Noel, em uma região cercada por pinheiros e afastada do movimento mais intenso do centro.
Na segunda, fomos para Tromsø, na Noruega, também em dezembro. Dessa vez, ficamos em um motorhome fixo perto dos fiordes, praticamente de frente para a água. Bastava abrir a porta para encontrar neve por todos os lados. Até o banheiro tinha um sistema tecnológico que deixava aquela situação meio surreal.
Nas duas viagens, procurávamos exatamente a mesma coisa.
E nas duas aprendemos que uma fotografia não conta a história inteira.
Quando a câmera percebe a Aurora antes de você

Quando alguém fala em Aurora Boreal, é fácil imaginar aquelas enormes cortinas verdes atravessando o céu, brilhantes e perfeitamente definidas.
Nós também imaginávamos algo assim.
Só que, em Rovaniemi, a primeira vez foi bem diferente.
Estávamos justamente ali para tentar encontrar a Aurora e, mesmo assim, não percebemos de imediato que ela estava acontecendo. Havia várias pessoas paradas olhando para o céu. Algumas começaram a sugerir que tirássemos uma fotografia.
Nossa primeira reação foi quase de desconfiança.
Veja também: Concha y Toro vale a pena para quem não entende de vinho? A verdade que não contam
Será que estavam brincando com a nossa cara?
A olho nu, naquele momento, não víamos aquela Aurora verde e intensa das fotografias. Ainda assim, pegamos a câmera e fotografamos.
Quando olhamos para a imagem, veio a surpresa.
Ela estava lá.
A câmera tinha registrado a Aurora antes que nós conseguíssemos enxergá-la claramente.
Existe uma explicação para isso. Em ambientes muito escuros, nossos olhos dependem principalmente dos bastonetes, células da retina bastante sensíveis à luz, mas que distinguem as cores com menos eficiência. Os cones, responsáveis por uma percepção de cores mais precisa, trabalham melhor quando há mais iluminação.
Uma Aurora relativamente fraca pode, portanto, parecer aos nossos olhos apenas uma mancha clara, esbranquiçada ou acinzentada. A câmera consegue registrar uma tonalidade verde muito mais evidente.
E tem outro detalhe.
Uma fotografia pode usar uma exposição mais longa e acumular luz durante vários segundos. É como se o sensor tivesse tempo para juntar uma quantidade de luz que nossos olhos não conseguem acumular daquela maneira.
ISO elevado e uma abertura maior também aumentam a quantidade de luz registrada.
Foi aí que entendemos o que estava acontecendo. A câmera não estava inventando uma Aurora. Ela estava mostrando uma luz que ainda era fraca demais para os nossos olhos perceberem com a mesma intensidade.
A Aurora começa a se mexer

Depois daquele primeiro momento, a situação mudou.
A luz começou a ficar mais evidente. O que antes parecia quase uma mancha ganhou forma. Depois apareceu em outros pontos do céu.
E então começou a se movimentar.
Essa talvez seja uma das partes mais difíceis de explicar para quem nunca viu o fenômeno.
Não era uma faixa verde imóvel sobre nossas cabeças. As formas mudavam, se deslocavam, ficavam mais fortes, desapareciam parcialmente e voltavam em outro lugar.
É aí que a expressão “Aurora dançando” deixa de parecer apenas uma frase bonita de propaganda turística.
Quando a atividade aumenta, as estruturas da Aurora podem mudar rapidamente. O céu parece estar em movimento.
Uma fotografia consegue congelar um desses momentos. O que ela não consegue fazer é mostrar o que aconteceu nos segundos seguintes.
Veja também: Sky Costanera ao pôr do sol? Qual é o melhor horário para subir?
A luz começa no Sol
A explicação para a Aurora Boreal está muito mais longe do que parece.
O Sol libera continuamente partículas carregadas, formando o chamado vento solar. Durante períodos de maior atividade, também pode ocorrer a liberação de grandes quantidades de partículas e energia em direção ao espaço.
Quando essas partículas interagem com o campo magnético da Terra, algumas são conduzidas para as regiões polares.
Ao chegar à alta atmosfera, elas interagem com gases como oxigênio e nitrogênio. É essa interação que produz a luz da Aurora.
As cores dependem principalmente dos gases envolvidos e da altitude em que essas interações acontecem. O verde que aparece com tanta frequência nas fotografias está associado principalmente ao oxigênio em determinadas altitudes.
Ou seja, aquela luz que parece completamente fora do lugar no meio de uma noite escura é resultado de partículas vindas do Sol interagindo com o campo magnético e a atmosfera da Terra.
Quando a gente está embaixo dela, a explicação científica não diminui a sensação. Pelo contrário.
Por que o verde aparece tão forte nas fotos?
Existe outra diferença entre aquilo que fotografamos e aquilo que vemos.
As câmeras digitais conseguem registrar pequenas quantidades de luz com bastante eficiência. Quando usamos uma exposição mais longa, detalhes que quase desaparecem para os olhos ficam muito mais evidentes na fotografia.
Por isso, uma Aurora fraca pode parecer muito mais verde na imagem do que parecia naquele instante.
Isso não quer dizer necessariamente que a câmera esteja exagerando. É simplesmente uma forma diferente de registrar a luz.
Quando o fenômeno fica mais intenso, nossos próprios olhos passam a perceber as cores com muito mais facilidade.
Foi exatamente o que aconteceu conosco.
No começo, praticamente precisávamos acreditar nas outras pessoas e na câmera.
Depois chegou um momento em que não havia mais dúvida.
A Aurora estava ali.
Dezembro é realmente a melhor época?
Nós fomos em dezembro nas duas viagens e, para nós, foi uma boa escolha. Mas dizer simplesmente que dezembro é o melhor mês para ver a Aurora seria simplificar demais.
Em Rovaniemi, a temporada vai aproximadamente do fim de agosto ao início de abril, desde que exista escuridão, céu suficientemente limpo e atividade auroral.
Em Tromsø, a janela é semelhante, também aproximadamente do fim de agosto ao início de abril. A região está diretamente sob o oval auroral e precisa de escuridão suficiente para que o fenômeno possa ser observado.
Há, porém, um detalhe que costuma passar despercebido.
Dezembro não é necessariamente o mês com maior atividade da Aurora. Segundo o NOAA, existe uma tendência estatística de maior atividade geomagnética próxima aos equinócios de março e setembro.
Isso não significa que viajar em setembro ou março seja garantia de uma Aurora melhor.
Na realidade, é preciso juntar três coisas: atividade auroral, céu escuro e ausência de nuvens.
Uma Aurora fortíssima não adianta muito se estiver escondida atrás de um céu completamente fechado. Um céu perfeitamente limpo também não resolve se a atividade for insuficiente.
E existe ainda o verão ártico. Mesmo que haja atividade, a luminosidade do céu pode atrapalhar a observação.
Dezembro tem uma vantagem enorme nesse sentido. As noites são longas e a paisagem já está tomada pela neve.
Para nós, isso fez diferença.
Em Tromsø, a paisagem mudou completamente a experiência
A viagem para Tromsø teve outro cenário.
Estávamos em um motorhome fixo perto dos fiordes. Era aquele tipo de lugar em que você abre a porta e encontra neve ao redor.
E havia a água.
Aqui existe uma confusão comum que vale esclarecer. Se você estiver diante de um fiorde em Tromsø, não está olhando para um lago.
O fiorde é uma entrada de mar formada pela ação de antigas geleiras sobre o relevo. Dependendo do ponto em que você estiver, aquela água diante de você faz parte do ambiente marítimo dos fiordes.
Ver a Aurora nesse cenário, com neve, montanhas e a água à frente, é uma situação difícil de comparar com uma fotografia vista na tela de um computador.
A imagem registra o cenário. Estar ali é outra coisa.
O que uma fotografia simplesmente não consegue registrar
Acho que essa é a melhor maneira de explicar a diferença.
A fotografia pode mostrar as cores. Pode registrar as montanhas, a neve e até uma Aurora com uma definição impressionante.
Mas não mostra a espera.
Não mostra o frio no rosto.
Não mostra o silêncio.
Também não mostra aquele momento em que você olha para um céu completamente escuro e começa a se perguntar se realmente vai acontecer alguma coisa.
Existe uma espécie de dúvida permanente.
Você pode estar ali há bastante tempo sem enxergar absolutamente nada. Então surge uma pequena mancha verde, quase imperceptível. Aos poucos, ela cresce sobre sua cabeça.
Nós passamos por isso duas vezes.
E talvez seja justamente essa espera que torne a experiência tão diferente.
Você pode passar horas esperando e não ver nada

Essa é uma parte pouco mostrada nas fotografias bonitas das redes sociais.
A Aurora Boreal não aparece simplesmente porque você comprou uma passagem para a Lapônia.
Não há garantia.
Mesmo em destinos conhecidos como Rovaniemi e Tromsø, é preciso contar com condições favoráveis. Em Tromsø, a própria organização oficial de turismo alerta que não existe garantia de observação e recomenda céu claro, pouca poluição luminosa e paciência.
Isso significa que alguém pode passar três noites no Ártico e voltar sem ter visto a Aurora da maneira que imaginava.
Outra pessoa pode sair do hotel por alguns minutos e encontrar justamente a noite perfeita.
Foi exatamente essa imprevisibilidade que marcou nossa primeira experiência.
Estávamos procurando a Aurora.
Quando ela apareceu, nem percebemos.
Foram outras pessoas que nos mostraram que alguma coisa estava acontecendo no céu.
O momento em que finalmente entendemos o que estávamos vendo
Depois que vimos a Aurora na fotografia, começamos a olhar para o céu de outra maneira.
Aquela pequena luz ganhou movimento.
Depois, intensidade.
Em seguida, começou a ocupar outras áreas do céu.
E, quando finalmente conseguimos enxergar as cores com nossos próprios olhos, veio uma sensação difícil de explicar.
Não parecia um espetáculo.
Era mais estranho do que isso.
Era como se o céu estivesse fazendo alguma coisa que não deveria estar acontecendo.
Talvez seja por isso que tanta gente fique em silêncio diante da Aurora. Não há muito o que dizer.
Você simplesmente olha.
O que as fotos da Aurora Boreal não conseguem mostrar
Elas não conseguem transmitir completamente a escala do fenômeno. Não mostram a velocidade com que as formas mudam e tampouco reproduzem exatamente a maneira como nossos olhos percebem uma Aurora mais fraca.
Não mostram o frio, o silêncio, as horas de espera ou aquela expectativa de saber se alguma coisa vai aparecer.
E certamente não registram a primeira reação de incredulidade.
Nós fomos duas vezes atrás da Aurora Boreal.
Em Rovaniemi, aprendemos que uma câmera pode enxergar primeiro aquilo que nossos próprios olhos ainda não conseguem perceber.
Em Tromsø, tivemos outra oportunidade de ficar diante daquele céu, cercados pela neve e pelos fiordes.
Hoje, quando olhamos para aquelas fotografias, elas continuam bonitas. Só que sabemos que estão incompletas.
A fotografia mostra o que estava no céu.
A memória guarda o que estava acontecendo dentro da gente.
E essa é uma parte da Aurora Boreal que nenhuma câmera consegue fotografar.
Quando planejar uma viagem para ver a Aurora Boreal
Se a viagem for feita especificamente para tentar ver a Aurora, eu não escolheria a data apenas com base em uma promessa de “melhor mês”.
Setembro e outubro, assim como março, têm uma vantagem estatística relacionada à atividade geomagnética, principalmente perto dos equinócios. Já o período entre novembro e março oferece noites muito longas e, durante o inverno, a possibilidade de encontrar as paisagens cobertas de neve.
Em Rovaniemi, a temporada vai aproximadamente do fim de agosto ao início de abril. Em Tromsø, a janela também vai aproximadamente do fim de agosto ao início de abril, com a cidade situada diretamente sob o oval auroral.
