No topo de uma das colinas mais altas de Sintra, cercado de neblina boa parte do ano, existe um palácio que parece ter saído de um desenho animado. Ele é todo em cores vivas, com as suas torres amarelas e vermelhas, cúpulas em formato de cebola, portais decorados com criaturas mitológicas nos seus detalhes. Estamos falando do Palácio da Pena, considerado um dos exemplos mais completos de arquitetura romântica de todo o século dezenove na Europa.
E, se você já foi, ou planeja ir a Portugal, já deve ter ouvido falar dele. Fica dentro do Parque na Pena, na incrível cidade serrana de Sintra.
A história do mosteiro que foi destruído por um terremoto
A história do local começa bem antes do palácio existir. No final do século quinze, o rei Dom Manuel I mandou construir ali um mosteiro da Ordem de São Jerônimo, erguido no topo do morro em homenagem a uma antiga capela dedicada a Nossa Senhora da Pena. O mosteiro funcionou por séculos, até ser praticamente destruído pelo terremoto de 1755, o mesmo que arrasou boa parte de Lisboa.
As ruínas ficaram praticamente abandonadas até 1838, quando o príncipe consorte Dom Fernando II, de origem alemã e casado com a rainha Dona Maria II, se apaixonou pelo lugar durante uma visita a Sintra. Ele comprou a propriedade com a intenção inicial de apenas restaurar o antigo mosteiro, mas o projeto acabou se transformando em algo bem mais ambicioso: uma residência de verão completamente nova para a família real.
Quem assinou o projeto foi o engenheiro alemão Von Eschwege, que viajou pela Europa e pelo norte da África em busca de referências antes de desenhar o palácio. O resultado misturou, sem nenhuma preocupação de coerência única, elementos neogóticos, neomanuelinos, neoislâmicos e neorrenascentistas, incorporando ainda influências da arquitetura mourisca do sul da Espanha e da Argélia.

Essa mistura deliberada de estilos era, na verdade, exatamente o ponto: o romantismo do século dezenove valorizava justamente esse tipo de collage histórica e cultural, recuperando referências da Idade Média como forma de expressão artística e emocional, não de precisão histórica. Construído entre 1842 e 1854, o Palácio da Pena é considerado o primeiro grande exemplo de arquitetura romântica em Portugal, e chegou a servir de inspiração para outros projetos europeus construídos décadas depois, incluindo o famoso castelo de Neuschwanstein, na Alemanha, erguido cerca de trinta anos após a versão portuguesa.
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O que sobrou do antigo mosteiro?
Apesar de toda a extravagância da nova construção, parte do mosteiro original de fato sobreviveu e foi incorporada ao novo projeto, o claustro e a capela mantêm até hoje seu retábulo renascentista em alabastro e mármore, obra do escultor francês Nicolau Chanterene, com cenas da vida de Cristo e da Virgem esculpidas séculos antes de qualquer torre colorida existir ali.
Um jardim de 85 hectares plantado por iniciativa própria do rei
Ao redor do palácio, Dom Fernando II também organizou pessoalmente um extenso parque de estilo inglês, com espécies de árvores trazidas de diferentes continentes, formando hoje uma área de 85 hectares de trilhas, lagos e recantos incomuns, como pequenos chalés e construções decorativas escondidas entre a vegetação.
Em 1995, a Unesco reconheceu toda a paisagem cultural de Sintra, incluindo o Palácio da Pena, como Patrimônio Mundial da Humanidade. Hoje o palácio também é considerado uma das sete maravilhas de Portugal, além de integrar a rede europeia de residências reais históricas ainda preservadas.
Poucos lugares resumem tão bem o espírito de uma época quanto esse palácio, nasceu do capricho pessoal de um rei apaixonado por uma paisagem, e se tornou, quase dois séculos depois, um dos símbolos visuais mais reconhecíveis de Portugal no mundo inteiro.
