A esponja que quase desapareceu do mar Egeu, e ainda é vendida do jeito antigo nos portos gregos

Cássia Alves

outubro 2, 2026

Esponjas do mar, em Heraklion, Creta.
Início » Curiosidades » A esponja que quase desapareceu do mar Egeu, e ainda é vendida do jeito antigo nos portos gregos

No porto velho de Heraklion, entre os barcos de pesca ancorados e as redes amarelas estendidas para secar, é comum encontrar pequenas bancas vendendo cestos cheios de esponjas marinhas de verdade, irregulares, bege-douradas, nada parecidas com o retângulo perfeito e sintético que a maioria das pessoas usa no banho. São esponjas retiradas do fundo do mar, do jeito que gregos fazem há milênios. E essa tradição quase acabou de vez há pouco mais de cem anos.

Um organismo marinho que virou objeto de uso diário

Esponja do mar no porto de Heraklion, Creta.
Esponja do mar no porto de Heraklion, Creta.

A esponja natural, cientificamente um organismo do gênero Spongia, entre eles a Spongia officinalis, é um dos seres vivos mais antigos do planeta, e sua textura porosa e absorvente fez dela um item valioso desde a Antiguidade. No mundo grego, a exploração de recursos do mar Egeu, peixe, marisco, sal e esponjas, remonta a períodos muito antigos, ganhando ainda mais relevância a partir da metade do segundo milênio antes de Cristo, quando o mar passou a ser um elemento central na vida cotidiana das populações costeiras.

Ao longo dos séculos, ilhas como Kalymnos, Symi e Halki se tornaram polos de referência na pesca de esponjas, com mergulhadores especializados que desciam ao fundo do mar para colher o material manualmente. Era um trabalho duro, perigoso e, ao mesmo tempo, extremamente lucrativo, a esponja natural virou um dos produtos mais exportados da região por gerações.

Veja também: A ilha foi a ‘casa’ de Apolo e compete com Mykonos e Santorini! Conheça Naxos

A doença que quase destruiu toda a indústria

No início do século XX, uma doença atingiu de forma severa os bancos de esponja do Mediterrâneo oriental, dizimando boa parte da população desses organismos. O impacto foi tão grande que muitos mergulhadores das ilhas gregas tradicionalmente ligadas a essa atividade migraram em busca de novos locais de trabalho, alguns deles se estabeleceram em Tarpon Springs, na Flórida, nos Estados Unidos, levando junto o conhecimento técnico da pesca de esponjas. A cidade americana chegou a se tornar, ao longo do século XX, um polo relevante dessa indústria, movimentando milhões de dólares por ano graças à expertise trazida pelos imigrantes gregos.

Décadas depois, o mesmo padrão se repetiu do outro lado do Atlântico: uma proliferação de algas conhecida como maré vermelha destruiu boa parte dos bancos de esponja no Golfo do México, afetando também a indústria americana. Some-se a isso a popularização da esponja sintética, criada em laboratório e muito mais barata de produzir, e o resultado foi um encolhimento contínuo dessa atividade tradicional em praticamente todo o mundo.

Porém, certos fatos nunca mudaram

Mesmo com todo esse histórico de crises, a venda de esponjas naturais nunca desapareceu completamente dos portos gregos, e é isso que explica aquelas bancas espalhadas pelo cais de Heraklion, ao lado de conchas e outros produtos do mar. Para quem visita a ilha, elas funcionam como lembrança de viagem; para quem entende do assunto, são um dos últimos fios visíveis de uma cadeia produtiva que já foi imensa e hoje sobrevive em escala bem mais modesta, sustentada em parte pelo turismo.

Há inclusive pesquisa científica em curso sobre a capacidade de regeneração de diferentes espécies de esponja nas águas de Creta, o que sugere que o interesse por esse organismo marinho não é apenas comercial ou histórico, mas também ambiental, afinal, entender como esponjas se recuperam de danos pode ter implicações para a conservação de ecossistemas marinhos como um todo.

Veja também: Por que as casas da Grécia são brancas (não é nada romântico)

Muito além de um simples souvenir…

A história da esponja grega é, no fundo, uma história sobre como uma cadeia inteira de trabalho humano pode depender do equilíbrio de um ecossistema marinho, e sobre como uma doença, ou um fenômeno biológico aparentemente pequeno, é capaz de mudar a rota de vida de comunidades inteiras, do outro lado do mundo inclusive.

A próxima vez que alguém segurar uma esponja natural comprada num porto grego, vale lembrar que aquele objeto simples carrega, dentro de si, mergulhadores, migrações, epidemias marinhas e mais de três mil anos de relação entre o homem grego e o fundo do mar Egeu.