Imagine abrir os olhos numa manhã comum e perceber que o azul do planeta simplesmente sumiu. Praia ainda estaria lá, só que sem onda nenhuma quebrando. Porto ficaria cercado de terra rachada, navio inteiro repousando no fundo de bacia oceânica vazia, feito monumento de um mundo que deixou de existir. Parece cenário de filme catástrofe, mas puxar esse fio até o fim revela o quanto a vida na Terra depende de algo que a maioria trata só como paisagem de fundo.
O que iria acontecer se todos os oceanos desaparecessem?

O primeiro sistema a quebrar seria o termostato do planeta
Os oceanos cobrem cerca de 71% da superfície terrestre e absorvem mais de 90% do excesso de calor retido pelo efeito estufa nas últimas décadas, segundo estimativas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, a IPCC. Sem essa massa de água armazenando e redistribuindo energia térmica através de correntes marítimas, como a Corrente do Golfo, o clima perderia o amortecedor que hoje mantém regiões costeiras mais estáveis do que o interior dos continentes.
O dia ficaria absurdamente quente, a noite perderia calor rápido demais, e o mundo inteiro passaria a operar num regime térmico parecido com o de um deserto continental, só que em escala planetária.
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A chuva seria a próxima vítima, e essa conta é surpreendentemente simples
A maior parte da evaporação que alimenta o ciclo da água no planeta sai da superfície do mar, e sem esse reservatório gigantesco alimentando a atmosfera, rio, lençol freático e reserva de gelo continuariam existindo, mas longe do suficiente para sustentar agricultura em escala global.
Toda cadeia que depende de chuva regular, plantação, floresta tropical, inclusive a Amazônia, entraria em estresse hídrico severo, o que devolveria menos carbono capturado para a atmosfera e aceleraria o próprio aquecimento que ajudou a secar tudo isso.
A vida marinha desapareceria quase por completo, e aqui mora o dado que menos gente conhece
O fitoplâncton, organismo microscópico que flutua nos primeiros metros de profundidade dos oceanos, responde por algo entre 50% e 80% de todo o oxigênio produzido no planeta, segundo estimativas da NOAA e do Woods Hole Oceanographic Institution, superando inclusive a soma de todas as florestas tropicais terrestres.
Uma única espécie desse grupo, a bactéria Prochlorococcus, tão pequena que 20 mil delas cabem numa gota de água do mar, é responsável sozinha por até 20% do oxigênio de toda a biosfera. Sem oceano, esse motor de oxigênio para, e embora a atmosfera tenha reserva suficiente para não sufocar ninguém da noite para o dia, a capacidade do planeta de repor esse gás e equilibrar o carbono ficaria comprometida de forma permanente.
O fundo do mar exposto revelaria uma paisagem que praticamente ninguém já viu de perto
A Fossa das Marianas, o ponto mais profundo já registrado nos oceanos, com cerca de 10.935 metros de profundidade, viraria um abismo gigantesco em pleno terreno seco, cercado de cordilheira submarina, vulcão extinto e sedimento acumulado ao longo de milhões de anos. Longe de virar um continente novo habitável, essa área tenderia a ser instável, salgada e hostil, com decomposição de matéria orgânica marinha liberando gás em larga escala.[
Haveria uma séria repercussão na regulação do clima global
O clima global perderia o que regula furacão, monção e frente fria, processos que hoje dependem diretamente da interação entre oceano e atmosfera. Sem essa regulagem, o planeta não ficaria só seco, ficaria desorganizado, tempestade de poeira em escala de deserto gigantesco, onda de calor mais longa, menos nuvem formada e mais luz solar refletida de volta ao espaço num padrão completamente diferente do atual.
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Para a humanidade, restaria pouca margem de manobra
Sobreviver dependeria de aquífero preservado, reciclagem de água em escala extrema e talvez ambientes fechados capazes de controlar temperatura e produção de alimento artificialmente. Nenhuma tecnologia hoje disponível sustenta bilhões de pessoas num cenário assim, o que deixa claro que a civilização como existe hoje simplesmente não sobreviveria ao desaparecimento dos oceanos.
Mas, os oceanos poderão sumir em breve?
A boa notícia é que os oceanos não vão sumir do dia para a noite, essa hipótese continua sendo exercício de raciocínio, não previsão real. A má notícia é que aquecimento, poluição, acidificação e pesca predatória já vêm corroendo, aos poucos, a capacidade que o mar tem de fazer todo esse trabalho invisível de regular clima, produzir oxigênio e alimentar bilhões de pessoas. Não precisa o oceano desaparecer por completo para o sistema começar a falhar, só precisa continuar perdendo eficiência no ritmo atual.
