Por que alguns atletas parecem nunca ficar nervosos? Este é o segredo

Cássia Alves

junho 27, 2026

Por que alguns atletas parecem nunca ficar nervosos?
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Em uma final decisiva, diante de um estádio cheio ou poucos segundos antes de uma cobrança importante, alguns atletas transmitem uma calma impressionante. Eles parecem respirar normalmente, evitam gestos de tensão e tomam decisões rápidas mesmo quando o resultado pode mudar tudo.

No entanto, essa aparência pode enganar. Na maioria das vezes, atletas experientes também sentem medo, ansiedade, expectativa e pressão. A diferença está menos em “não sentir nervosismo” e mais em reconhecer essas emoções, compreender seus sinais e manter a atenção no que precisa ser feito.

A psicologia do esporte mostra que o nervosismo não é necessariamente um inimigo. Em níveis equilibrados, ele pode aumentar o estado de alerta, melhorar a concentração e preparar o corpo para agir. O problema aparece quando a preocupação domina os pensamentos, atrapalha a tomada de decisões e faz a pessoa perder o foco na tarefa. Pesquisas indicam que a ansiedade pode alterar a atenção visual e tornar movimentos técnicos menos eficientes, especialmente em situações de pressão.

Eles também sentem pressão

É comum imaginar que grandes campeões nasceram com uma espécie de “frieza” natural. Embora características pessoais possam influenciar a forma como cada pessoa reage ao estresse, a tranquilidade vista em quadra, na pista ou no campo costuma ser construída com treino e experiência.

Um atleta pode ficar nervoso antes de uma competição importante e, ainda assim, parecer seguro. Isso acontece porque ele aprendeu a não transformar cada sensação física em sinal de fracasso. Coração acelerado, mãos suadas, respiração curta e tensão muscular podem ser interpretados como medo, mas também podem ser vistos como preparação do corpo para uma situação exigente.

Em vez de pensar “estou nervoso, então vou errar”, muitos atletas treinam uma leitura diferente: “meu corpo está ativado e pronto para competir”. Essa mudança não elimina a pressão, mas reduz a chance de ela virar pânico.

A rotina ajuda a criar sensação de controle

Antes de uma partida, prova ou apresentação, muitos atletas repetem hábitos parecidos: organizam os materiais, fazem aquecimento, ouvem música, respiram de determinada forma ou repetem palavras de incentivo. Esses comportamentos são conhecidos como rotinas pré-competitivas.

A rotina não funciona como superstição. Ela pode ajudar porque diminui a quantidade de decisões que a pessoa precisa tomar em um momento já carregado de tensão. Quando algumas etapas são conhecidas e repetidas, o cérebro entende que existe um caminho claro até o início da competição.

Um tenista pode quicar a bola antes do saque. Um jogador de basquete pode repetir os mesmos movimentos antes de um lance livre. Um corredor pode seguir uma sequência fixa de aquecimento. Em todos esses casos, o objetivo é parecido: sair dos pensamentos sobre o resultado e voltar para o presente.

O foco está no processo, não apenas no placar

Atletas que parecem tranquilos geralmente desenvolvem a capacidade de concentrar a atenção em ações específicas. Em vez de pensar apenas em vencer, quebrar um recorde ou não decepcionar alguém, eles procuram se prender ao que podem controlar.

No futebol, isso pode significar observar o posicionamento do adversário e executar o passe mais adequado. Na natação, pode ser manter a técnica de respiração e o ritmo das braçadas. No vôlei, pode envolver a leitura do saque e a posição do corpo para receber a bola.

A ansiedade tende a crescer quando a mente se fixa em consequências: “E se eu perder?”, “E se eu errar?”, “O que vão pensar de mim?”. Sob pressão, esse tipo de pensamento pode distrair o atleta e prejudicar o controle da atenção. Estudos com esportistas mostram que a ansiedade pode mudar o modo como eles observam o ambiente e reduzir a eficiência de decisões e movimentos.

Por isso, profissionais da psicologia do esporte costumam trabalhar metas de processo. Em vez de definir apenas “preciso ganhar”, o atleta pode estabelecer objetivos como manter a postura, seguir a estratégia combinada ou recuperar a concentração depois de um erro.

A experiência ensina a lidar com erros

Outro motivo para a aparente calma de atletas experientes é que eles já passaram por situações difíceis. Erraram pênaltis, perderam posições, foram substituídos, receberam críticas e tiveram dias ruins. Com o tempo, aprendem que uma falha não precisa definir toda a competição ou toda a carreira.

Isso não significa que o erro deixa de incomodar. A diferença é que atletas mais preparados tendem a se recuperar com mais rapidez. Eles não gastam tanto tempo discutindo mentalmente o que já aconteceu. Em vez disso, tentam voltar para a próxima jogada.

Essa habilidade é conhecida como regulação emocional. Ela envolve perceber a emoção, aceitá-la sem exagerar seu significado e escolher uma resposta mais útil. Um atleta pode ficar frustrado depois de falhar, mas continuar comprometido com a próxima ação.

O diálogo interno também faz diferença

A maneira como uma pessoa conversa consigo mesma influencia seu comportamento. Frases como “vou estragar tudo”, “não consigo lidar com isso” ou “não posso errar” costumam aumentar a pressão.

Já mensagens curtas e realistas podem ajudar a direcionar a atenção: “uma jogada de cada vez”, “respira e executa”, “confia no treino” ou “volta para a estratégia”. Não se trata de repetir frases mágicas, mas de usar pensamentos que orientem a ação.

Uma meta-análise sobre o uso de diálogo interno no esporte encontrou efeito positivo moderado desse tipo de estratégia sobre o desempenho em diferentes tarefas esportivas.

Parecer calmo não significa estar bem o tempo todo

Também é importante evitar uma ideia perigosa: a de que atletas precisam demonstrar força o tempo inteiro. A pressão por resultados, críticas públicas, lesões, cobranças familiares e expectativas pessoais pode afetar a saúde mental de qualquer esportista.

A psicologia do esporte não serve apenas para melhorar resultados. Ela também contribui para o bem-estar, para a confiança e para o enfrentamento de dificuldades que aparecem dentro e fora das competições. A Associação Americana de Psicologia destaca que profissionais da área ajudam atletas a lidar com obstáculos que interferem tanto no desempenho quanto na saúde emocional.

Portanto, alguns atletas parecem nunca ficar nervosos porque aprenderam a conviver com o nervosismo. Eles treinam a mente assim como treinam força, velocidade, técnica e resistência. Em vez de esperar que a ansiedade desapareça, desenvolvem recursos para manter a atenção, lidar com erros e agir mesmo sob pressão.

A verdadeira calma não é a ausência de medo. É a capacidade de continuar fazendo o que precisa ser feito apesar dele.