Imagina sair de um vale verde, com vaca pastando e sino tilintando ao longe, e menos de duas horas depois estar respirando ofegante dentro de um túnel esculpido na rocha, a 3.454 metros de altitude, cercado de gelO?
É basicamente isso que acontece em qualquer subida até o Jungfraujoch, o complexo suíço que ganhou o apelido comercial de Top of Europe. O nome é meio exagero de marketing, o ponto mais alto da Europa fica em outro lugar, mas a sensação física de chegar lá em cima é real e vale a pena entender antes de embarcar.
Entendendo o Topo da Europa

O trajeto começa suave. Relatos de visitantes que fizeram a subida contam que, saindo de Lauterbrunnen, a apenas vinte minutos da primeira estação, o trem segue até Kleine Scheidegg, parada obrigatória independente da rota escolhida, levando cerca de 1h20 até ali.
Nesse ponto já se está a 2.060 metros, e é hora de trocar de trem pela última vez. Daqui em diante a viagem passa a acontecer majoritariamente dentro de túneis, com direito a duas paradas de cinco minutos em janelas talhadas na rocha para apreciar a vista lá de dentro.
Depois de mais 50 minutos de percurso, chega-se ao destino final, a própria Jungfraujoch, a cerca de 3.500 metros. Contando ida e volta, o passeio completo costuma consumir umas 6 horas.
Tecnicamente, o trem sobe 9,34 quilômetros, boa parte deles dentro de um túnel de 7 quilômetros escavado atravessando o Eiger e o Mönch, vencendo 1.400 metros de desnível no processo. A ferrovia foi inaugurada em 1912, depois de 16 anos de obras que começaram em 1896, sob ideia original do engenheiro Adolf Guyer-Zeller, concebida ainda em 1893.
Parte considerável da escavação foi feita literalmente na marra, homens com picareta e pá, maquinário só entrou em cena mais tarde, no trecho final. A estação de Jungfraujoch, a 3.454 metros, é hoje a mais alta da Suíça e da Europa. A região toda, os Alpes Bernese Jungfrau-Aletsch, virou a primeira área alpina a receber status de Patrimônio Mundial da UNESCO, em 2001.
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O que acontece com o seu corpo quando você chega ao topo?
Chegando lá em cima, o corpo já está processando uma mudança e tanto. Com menos oxigênio disponível no ar, o organismo precisa trabalhar mais para manter tudo funcionando, a respiração acelera, o coração bate mais rápido, e a sensação de cansaço chega bem antes do normal.
O problema é que o trem sobe rápido demais para dar tempo de aclimatação, o que torna esses efeitos mais perceptíveis do que numa subida gradual a pé. Em relatos publicados em fóruns de viagem, alguns visitantes descrevem sintomas mais intensos, dor de cabeça latejante e desorientação já na chegada, a ponto de precisarem sair do local rapidamente.
Para a maioria das pessoas saudáveis, porém, o efeito costuma ser leve, uma falta de ar discreta, mais cansaço que o esperado e, no máximo, uma dor de cabeça passageira. O mal da altitude propriamente dito, com náusea e vômito, é raro nessa altura, mas não é impossível.
A temperatura também muda de personalidade assim que se sai da estação. Lá embaixo, nos vales verdes do Bernese Oberland, é praticamente outro clima. Em cima, mesmo em pleno verão, o cenário vira neve, rocha e gelo, com o glaciar de Aletsch se estendendo por 22 quilômetros diante dos olhos, o mais longo dos Alpes. Em dia claro, o alcance de visão passa da fronteira suíça e chega aos montes Vosges, na França, e à Floresta Negra, na Alemanha.
A infraestrutura do lugar

A infraestrutura no topo surpreende para quem espera só um mirante gelado. O complexo do Top of Europe tem cinco níveis, ligado à estação subterrânea por túnel e ao Observatório Sphinx por elevador, esse último a cerca de 3.571 metros de altitude, o ponto mais alto de toda a visita.
Ali dentro cabe um Palácio de Gelo com esculturas talhadas na própria geleira, a instalação Alpine Sensation, criada para celebrar o centenário da ferrovia, o Snow Fun Park para quem quer brincar na neve mesmo em pleno verão, restaurantes, uma loja da Lindt considerada a mais alta do tipo no mundo, e até uma agência de correios, oficialmente a mais alta da Europa. Existe ainda uma construção mais antiga que abriga uma estação de pesquisa científica.
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Agora o trajeto ficou mais fácil

Desde dezembro de 2020, ficou mais rápido chegar lá. O Eiger Express, um teleférico tricabo descrito como o mais moderno e pesado do tipo, leva visitantes do terminal de Grindelwald até a estação Eiger Glacier em apenas 15 minutos, dentro de cabines para 26 pessoas, cortando 47 minutos do tempo total de viagem em relação à rota tradicional só de trem.
A experiência de visitar o Top of Europe mistura duas camadas que raramente aparecem juntas num mesmo passeio turístico, a proeza de engenharia centenária que perfurou duas montanhas com força bruta, e o efeito bem concreto que a altitude produz no corpo de quem chega lá em cima sem tempo de se acostumar. Vale enfrentar a fila e o preço salgado do bilhete só para sentir na pele essa combinação estranha de cansaço repentino e paisagem de gelo interminável, mas quem tem histórico de problema respiratório ou cardíaco faz bem em pesquisar antes e conversar com um médico, porque ali em cima o ar simplesmente não entrega o mesmo tanto de oxigênio ao qual o corpo está acostumado lá embaixo.
