O relógio marca 90 minutos, o árbitro olha para o campo e, em vez de encerrar a partida, avisa que ainda falta meia hora para o fim. Para quem acompanha futebol, a cena parece estranha. Afinal, os 90 minutos fazem parte da identidade do esporte há gerações. No entanto, a ideia de partidas com 120 minutos abre espaço para uma discussão curiosa: o futebol ficaria melhor, mais justo ou simplesmente mais cansativo?
Hoje, uma partida oficial é disputada em dois tempos de 45 minutos. Quando uma competição eliminatória precisa apontar um vencedor após empate, o regulamento pode prever uma prorrogação de dois tempos de até 15 minutos e, caso a igualdade permaneça, disputa por pênaltis. Portanto, os 120 minutos já existem no futebol, mas como uma exceção reservada a jogos decisivos.
Transformar essa duração em regra mudaria muito mais do que o tempo passado diante da televisão. Alteraria a preparação física dos atletas, as escolhas dos treinadores, a montagem dos elencos e até o calendário das competições.
Mais tempo não significaria necessariamente mais futebol
À primeira vista, uma partida mais longa poderia parecer uma solução para aumentar a emoção. Afinal, 30 minutos extras representariam mais chances de ataque, mais gols e mais oportunidades para uma equipe buscar uma virada.
Na prática, porém, o cenário seria mais complexo. À medida que o desgaste físico aumenta, os jogadores tendem a correr menos, cometem mais erros de passe e encontram dificuldade para pressionar o adversário com a mesma intensidade. Em vez de um jogo mais aberto, parte das partidas poderia ficar mais travada, especialmente quando uma equipe estivesse em vantagem no placar.
Além disso, o futebol não é formado apenas pelo tempo em que a bola está rolando. Há faltas, substituições, atendimentos médicos, cobranças de escanteio, revisões do VAR e pausas naturais do jogo. Assim, uma partida de 120 minutos no cronômetro poderia ultrapassar com facilidade duas horas e meia de duração total, dependendo dos acréscimos.
Para o torcedor no estádio, isso significaria mais tempo de deslocamento, alimentação, transporte público e retorno para casa. Para quem acompanha pela televisão, partidas noturnas poderiam terminar muito tarde, especialmente em dias úteis.
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O impacto sobre os jogadores seria enorme

O principal obstáculo para partidas de 120 minutos seria o desgaste dos atletas. O futebol moderno exige explosão, velocidade, mudanças bruscas de direção, disputas físicas e corridas de alta intensidade. Mesmo jogadores bem preparados sentem os efeitos de uma prorrogação, principalmente quando a equipe vem de uma sequência apertada de jogos.
Em campeonatos nacionais, muitos clubes disputam partidas a cada três ou quatro dias. Há jogos de liga, copas, torneios continentais e compromissos por seleções. Se cada confronto tivesse 30 minutos a mais, o volume acumulado de minutos em uma temporada cresceria de forma considerável.
Isso poderia aumentar a necessidade de rodízio de elenco. Técnicos seriam obrigados a poupar titulares com mais frequência, principalmente atletas mais velhos ou aqueles que ocupam posições de grande exigência física, como laterais, volantes e pontas.
Os clubes com elencos mais caros e numerosos levariam vantagem. Equipes menores, que muitas vezes dependem de poucos jogadores decisivos, teriam maior dificuldade para manter o nível físico durante toda a temporada. Dessa forma, uma regra criada para tornar o jogo mais longo poderia ampliar a diferença entre os clubes.
As substituições ganhariam outro peso
Se os jogos durassem 120 minutos, a quantidade de substituições precisaria ser debatida. Atualmente, muitas competições permitem cinco trocas durante o tempo regulamentar, e algumas autorizam uma substituição adicional na prorrogação.
Em uma realidade de 120 minutos como regra, cinco substituições talvez não fossem suficientes. Os treinadores poderiam precisar de seis, sete ou até mais alterações, especialmente para proteger jogadores lesionados ou esgotados.
Isso mudaria a estratégia das partidas. Hoje, muitos técnicos guardam substituições para os minutos finais, tentando colocar em campo um atacante descansado ou reforçar a marcação. Com 120 minutos, as trocas poderiam começar bem antes, talvez ainda durante o primeiro tempo.
O banco de reservas também se tornaria mais importante. Não bastaria ter 11 titulares fortes; seria necessário contar com opções capazes de manter o ritmo do jogo em diferentes posições. Jogadores versáteis, que atuam como lateral e ponta ou como volante e zagueiro, teriam ainda mais valor.
A tática poderia mudar completamente
O futebol de 90 minutos exige equilíbrio entre intensidade e administração do resultado. Com meia hora adicional, os treinadores talvez adotassem estratégias mais cautelosas no início.
Uma equipe que costuma pressionar o adversário desde os primeiros minutos poderia reduzir a intensidade para evitar queda física no fim. Já times defensivos poderiam apostar em resistir por mais tempo, esperando que o adversário se desgaste antes de tentar contra-atacar.
Por outro lado, os 30 minutos extras poderiam dar mais espaço para viradas. Uma equipe que sofre um gol cedo normalmente precisa correr contra o relógio. Em uma partida de 120 minutos, haveria mais tempo para reorganizar o jogo e buscar a recuperação.
Ainda assim, esse cenário não garantiria jogos mais bonitos. Quando o cansaço aumenta, cresce também a chance de decisões tomadas por erro, não por qualidade técnica. Um passe mal executado, uma cobertura atrasada ou uma falha de posicionamento poderia definir o resultado de uma partida muito mais longa.
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E os pênaltis?
Uma possível consequência seria a redução das disputas por pênaltis em torneios eliminatórios. Se 120 minutos fossem o tempo normal, as competições teriam de decidir o que fazer em caso de empate.
A prorrogação poderia desaparecer, já que ela deixaria de existir como etapa adicional. Restariam alternativas como os pênaltis, a repetição do jogo ou novos formatos de desempate. A repetição, comum em outras épocas do futebol, seria difícil de aplicar no calendário atual.
Por isso, os pênaltis provavelmente continuariam presentes. Mesmo com uma partida mais longa, ainda haveria confrontos equilibrados em que nenhuma equipe conseguiria marcar.
O futebol precisa de 120 minutos?
A resposta mais provável é não, ao menos não como regra geral. Os 90 minutos funcionam porque oferecem um equilíbrio entre intensidade, resistência física, estratégia e duração de espetáculo. A prorrogação já cumpre o papel de prolongar partidas especiais sem transformar todos os jogos em uma prova extrema de desgaste.
Isso não significa que o formato atual seja perfeito. O debate sobre tempo de bola em jogo, acréscimos, substituições e excesso de partidas no calendário continua importante. No entanto, antes de pensar em ampliar a duração dos confrontos, talvez seja mais útil garantir que os minutos já previstos sejam aproveitados com menos interrupções desnecessárias.
Por fim, partidas de 120 minutos poderiam trazer viradas memoráveis e decisões ainda mais dramáticas. Porém, também exigiriam mudanças profundas no calendário, nos elencos e na própria forma de jogar. O futebol ganharia meia hora a mais, mas correria o risco de perder parte da intensidade que torna cada minuto tão decisivo.
